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23 abril, 2007

O Blog...

(Photo By Memorex)

....vai ficar temporariamente

ENCERRADO


Estou aqui, relatando a minha milagrosa caminhada ao Implante Coclear.

Suave, suavemente á espera dos dias felizes, da resposta embrulhada que irá mudar por completo a minha vida.





25 fevereiro, 2007

Sorrisos de Gris

(Art By Memorex)

Sim, foi exactamente assim como digo, um encontro mágico! O nosso contacto renasceu no Fórum Implante Coclear, do Brasil, enquanto procurava informações assíduas acerca do portentoso Ouvido Biônico.
Houve simultaneamente uma pessoa, que me respondeu prontamente as questões do mesmo lado Atlântico que as brisas sussurrantes ameigaram os nossos rostos lusitanos.
Quem diria, nós, poetas no país plantado á beira-mar com a mesma particularidade e admiração pelo desconhecido.

No entardecer, á saída da faculdade dirigia-me á Papelaria Fernandes onde iria comprar material para um trabalho. O bonito tempo reservou raios de sol incandescentes, na linhagem das nuvens acinzentadas onde neste instante o observei á distância, de boné verde e casaco vermelho com óculos de sol, e uma pala fina, comprida branca.
Presenciei, uma palpitação intuitiva questionando se seria ele a pessoa com quem trocava correspondência. Aproximei com naturalidade, censurei os seus ouvidos implantados e fiquei suspensa arfando e agitada!

Não querendo assustá-lo, sendo ele um surdocego comum. O meu sorriso esboçou timidamente diante dele.
O “Zé Pedro”, que muitos o tratam carinhosamente, alegrou-se meio atrapalhado com tanta emoção disparando um rugido sonoro: Alice!
As horas, passaram inalteradas dentro do Café pelo barulho do trânsito caótico na Avenida de Estrela, espantosamente conversamos, dispusemos as nossas curiosidades e muitas dúvidas minhas esclarecidas acerca do IC. Foi magnífico nas explicações, ainda mais encantada pela sua tremenda força!!!

Chegara a hora, de irmos embora. Lado a lado, dirigíamos ao Metro. De repente fui parada por ele antes de avançar a passadeira:

- Espera, estou a ouvir uma ambulância.
- Consegues ouvir?!
-Sim consigo e o Implante Coclear não têm mesmo nada a ver com os Aparelhos Auditivos. È completamente diferente, mal posso esperar que sejas implantada.
- Pois é, vamos ver se tenho esta possibilidade.
- Vais ter, no que me contaste de os teus ouvidos estarem bem!

Passando 40 segundos, aparece a ambulância em alta velocidade!!! Estava tão fascinada e não queria acreditar que ele tinha ouvido! Prestes a entrar, apercebo da sua dificuldade em descer nas escadas. Dei-lhe como suporte o meu braço, segurando-o apenas.
Aí neste momento, cada um foi para o seu lado.

Foi tão forte, que nem aguentei tanta emoção. Por segundos julguei que iria chorar no meio da multidão freneticamente apressada. Mantive-me discreta.

11 fevereiro, 2007

Sobrenatural

(Art By Memorex)

Tudo começou a encaixar-se como as peças de um simples puzzle, capaz de despertar todas as impressões invulgarmente por um toque e encantamento.
Um sonho povoado de imagens a beber espaços e sinais esculpidos em pormenores intensos, um bando de crianças inocentes pertencentes a um grupo. Ambos carregavam instrumentos musicais, no descampado verdejante, longe de tudo, do rebuliço e da desordem!
Olhei em sobressalto para uma delas, cabelo curto á rapaz, a face arredondada, o primeiro olhar imprevisível, um sorriso encantador, as próteses auditivas bem visíveis.
Contemplava, admirada e boquiaberta. Inerte, de corpo paralisado no impulso que urgia o momento. Um jogo de palavras silenciosas.
A telepatia, o renascimento de um vulto figurado, uma cópia da minha humanidade, o “eu” existente. Ela é eu. Eu vi-me no seu (meu) reflexo.


Tinha nas suas (minhas) mãos, uma Flauta preta.

Ela é a minha (foi) mensagem, o toque desesperado que em tempos de tempestade emanava um floco alaranjado da minha Surdez. Um homem, desconhecido empoleirado de frases soletradas, a incompreensão e frustração do meu não entendimento fez com que me assustasse ventos ondulantes.
Chamou a criança surda, e pegou num pincel. A acção e os gestos transformaram-se em palavras.

As cores, violeta e azul estampadas na sua (minha) face.

Mensagem codificada da "A Decisão Final"

06 fevereiro, 2007

A Maior Responsabilidade

(Art By Memorex)

Mora aqui, "A Decisão Final" com o fundo a preto e as letras salpicadas de cor da minha Surdez.

17 janeiro, 2007

Timbres

(Photo By Memorex)

No silêncio de uma cachinada, as feições traçadas na sua aragem inocente explodem ingenuidades. Possuidora de uma encorpadura rebelde em crescimento, moldando linhas definidas de que a tornará numa bela rapariga talentosa.
Porventura, do seu dom musical. Observo-a bastante, estudo os seus movimentos agarrando desajeitadamente o Saxofone, pesado e robusto.
Os seus braços não se quebram, habituada a segurá-lo, o instrumento metal com chaves e embocadura de palheta. Vislumbro um objecto escondido na parte alongada do seu braço, formado um ramo de árvore, carrega um livrete de composições musicais de Jazz.

As pupilas dilatam, intensamente. Instruídas á sua fiel cor, castanhos dourados como mel obedecendo ao padrão da sua beleza morena. Continuo a espreitá-la, disfarçada sem fazer nenhum alarido por detrás da porta semi-aberta.
Neste instante os lábios esboçam-se lentamente, sim, ela sabe que estou ali a espiá-la. Não faço nada, deixo-me á mercê do emudecimento, assistindo o momento.
O livrete é aberto onde os seus dedos folheiam páginas á procura de uma melodia, parou e deve ter escolhido uma obra agradável.
Está a preparar-se, coloca os seus dedos nos botões dourados rítmicos, a boca ajustada na palheta preta e os olhos fixados nas notas saltitantes. Sustenta a respiração e os sons renascem vivos, energéticos.
Fui sacudida, pelo toque capitular dos meus aparelhos auditivos e toda a música estava no ar, invisível!

Não é irritante como o som da Flauta, um agudo agressivo e incómodo. Mas agradável, fecho os olhos, ouço-a com profundeza, abro a porta e deixo-a entrar embriagada de sede num vendaval de emoções.
São notas gigantes e pretas suspensas no ar. Cada símbolo musical com um par de asas incomparáveis.
Entrei no mundo imperceptível dos sons e soube instintivamente que podia voar entre as melodias. Elevo-me sem asas e rodopio apaixonada, ouvindo a orquestra sublime.

Saxofone, de Jean-Yves Fourmeau.

10 janeiro, 2007

Palavra

(by Memorex)

Bebo-as todas, pequenas letras desarrumadas que se vão juntando, transformando-a numa Palavra bem alinhada. Não é açucarada, nem amarga, perto ou distante.
È delicioso, cativante e arrebatador na ligeireza de uma borboleta determinada a fabricar o resultado aerodinâmico dentro do meu Ser.

Detonando sentimentos ilusionistas, de encantamento extraordinário derramando um diamante nítido, na imensidão do oceano.

O meu mar.

São pinceladas de um azul profundo e electromagnético. Tudo me atrai, seduzindo-me apenas, sem intenção as suas pequenas belezas e simplicidades que elevam em pensamento o meu sentir.

Letras enamoradas no entretenimento espontâneo, do olhar atento e viajante á descoberta de novos mundos linguísticos. Chapear no prazer incontrolável da literatura, amando:

- PALAVRAS.

30 novembro, 2006

O Céu Estrelado

(Imagem retirada daqui)

O coração bate… palpita-se devagarinho perseguindo sonhos duma utopia, de um lugar inexigível. Por vezes irreal, imaginário até!
Fito em palavras a abóbada celeste debaixo da escuridão em silêncio, enquanto o ritmo não me tranquilizar o meu vício de ti não vai esgotar nesta noite madrugadora. Observo encantada, extasiada de admirações neste belo andamento melodioso, de luzes interplanetárias pintalgadas.
Não quero nada deste mundo, apenas sentimentos e motins infantilizados, sussurrados na aurora universal.
Toda ela é beleza e pureza no feitiço mágico. O seu cheiro alastra, farejando os meus túneis nasais de terras cultivadas em terrenos planos, o mato seco do Verão inspira a fragrância aromática que me fazem cócegas.
Inteiramente só, sentada numa posição irregular sob a forragem verde encorpada de lividez. Deixo de possuir o sentido da vista, completamente vidrado para o infinito que embala o berço do centro de gravidade.
Todo o meu corpo vibra por dentro, fervilhando pipocas saltitantes.
Sinto a flutuar, a erguer pausadamente na atmosfera, tentando alcançar as bolas de berlindes coloridas que teimam tocar as íris dos meus olhares acriançados.

“Não me importo de estar aqui a noite inteira, assistindo esta contemplação toda. Uma serenidade indescritível repleta de encantos.”

19 novembro, 2006

Colorações Pigmentadas

( Photo by Memorex)
Pequenos fragmentos de memórias coloridas e monocromáticas invadem para dentro da minha insanidade mental. Vacinada sob o efeito da amnésia, as recordações voltam e desaparecem sem deixar rastos.
Não lhes peço para relembrar, as danças antigas.
Movendo passos dilatados, em compasso através das linhas programadas do meu corpo. O vulto memorável abre a cortina bailarina dos risos e dos esquecimentos, revelando emoções libertas e desordenadas. Quanta comoção existe?
Desejo tanto desligar este botão, o clique da efemeridade. O sofrimento constante, a agonia interminável pelo fogo da ignorância.

Apenas um desejo intencionado entra hostilmente, estranhando o termo. Censurá-lo cegamente, e enterrar bem no fundo do solo. Tal como uma dança desequilibrada, vai conquistando a sua cadência sonora, o corpo mexe saturado de elegância e excelência.

As recordações voltam e vão com várias colorações pigmentadas…

09 outubro, 2006

... SINTO ASSIM ...

A ausência de ruídos interpelam as polaridades desabitadas e naufragadas, mergulhando nas águas das recordações em sentido descendente de um azul cintilante e harmónico que nele flutua um sol aquático irrequieto, assombroso, misterioso e irreverente.

È exactamente assim como eu sinto, uma força inexplicável na esfera das sensações estimuladas e despertas que abraçam num circulo amoroso todas as existências.

Um encantamento espalhafatoso dançando ao ritmo do Jazz, soltando as sete tonalidades de um arco-íris…!

[sinto... sinto exactamente assim]

21 maio, 2006

Finalista Desnorteada V


Jornadeava pelo areal salgado com os meus amigos, os nossos corpos estavam esculpidos em partículas granulosas de natureza marítima. A descontracção pacífica fora quebrada com o à-vontade exemplar da bomba amolecida que nos atingiu sob a pele bronzeada e do olhar cintilante e brincalhão do F.
Elegante e ao mesmo tempo refinado, excepcionalmente bonito de ombros largos e entremostrava um riso ténue, aquele sorriso radiava um fascínio único e absoluto.
Os nossos dedos salpicavam palavras soltas, tapando a boca de lado como uma barreira para que não se tornasse visível ao F e nós um pequeno grupo de destacamento colégio-militar tínhamos uma missão surpresa.
Estávamos ansiosos!
Assim começamos a primeira ordem, lançar o bombardeamento gigantesco de lama ao alvo, foi deveras hilariante! Só via ele a correr, a ser atingido e a tropeçar nos buracos movediços, afadigado pela correria toda mas não desistia, prolongava-se com a persistência de não ser capturado.
Mais tarde por culpa da sua desconcentração iminente, apanhamo-lo finalmente. Um de nós agarrou-lhe pelos pulsos e nos tornozelos, aproximamo-nos junto á água e vimos a face horrorizada do F: renhido e obstinado a implorar-nos! Gracejávamos em voz alta, sonoramente.
Fizemos movimentos de quem se baloiça, a densidade do seu peso custava-nos aguentar por mais tempo até não podermos mais, soltamos-lhe para um lançamento memorável na queda aquática!
Neste preciso momento, as educadoras de infância ordenaram-nos para sentarmos nas toalhas. Desanimados, com as cabeças cabisbaixas brincando os dedos na areia a dar-nos uma lição de ingenuidade.

- Meninos! O que vos passou pela cabeça fazer esta brincadeira ao vosso colega? O F podia ter-se magoado!
- Só estávamos a brincar.
- A brincar?
- Sim, a brincar porque ele atirou-nos areia e nós queríamos uma vingança!
- Ah? Ò F, isto é verdade?
- Sim, é!
- Pronto, vamos lá para a água tirar esta areia toda mas com uma condição: quero que façam uma fila um a um.
- Mas I é para quê?!
- Depois vão ver, agora tocam a levantar e metam-se em fila.

Levantamos e pomo-nos em fila, estava eu no meio assistir esta atrapalhada toda dialogando com o F, a A e a S. Não durou muito tempo para perceber o que as educadoras pretendiam fazer-nos: um lançamento aquático!
(... tem continuidade ...)
Paragem Obrigatória: Intimidades

05 maio, 2006

Finalista Desnorteada IV


O dia estava de longe por finalizar, era de tarde onde o sol chamejava ardências em toda a superfície e dentro do autocarro, continuávamos a gritar incansavelmente.
Assentada na última fila, murmurava aos segredinhos com a Andreia que por vezes soltava uma estrondosa gargalhada da qual não conseguia conter o riso. A alegria transbordante no seu rosto enfeitava uma perfeição desusada, no meio dos seus cabelos indisciplinados que lhe tapavam os olhos.
A meiguice dos lábios mexiam com lentidão, para eu puder ler claramente sem dificuldades, a animação verbal. Pus-me de joelhos apoiados no exterior do banco e fizemos travessuras através da pedra-pomes para os automobilistas que seguiam atrás de nós.
Existia uma fileira de carros até ao cruzamento, nesta circunstância fraccionada descíamos da colina espiral e contemplamos o mar azul recheado de pequenos diamantes aureolados e as ondas arrebentavam serenamente como conchas.
O cheiro da maresia era doce, suave e empolgante. A paisagem imponente fora moldada pela força da natureza há milhões de anos, desenhando um belo quadro capaz de cortar a respiração!
Grandes pássaros sobrevoam o Olimpo, são dezenas pára-quedas em arco-íris que perfumam o belo azul em trinchas pitorescas. Fico abismada sobre o notável entretimento das coisas, tal é a simplicidade do próprio mundo ser despreocupado e ao mesmo tempo tão alegre para atenuar o peso da maldade, da arrogância e violência dos seres humanos.
Excitados pela proximidade de pisar os pés descalços nos grãos de areia, formámos uma fila a dois de mãos dadas e lá fomos procurar um lugar adequado. Desajeitada, com aflição sentia os pés a serem queimados por uma frigideira!
Laçamos as toalhas sobre a areia, com protector solar no corpo. Corremos tanto, mas quanta força existe por detrás da vitalidade? Quando somos crianças, não queremos parar senão estar sempre em movimento constante alimentado a bisbilhotice do desconhecido e cada achado era uma explosão surpreendente!
Ali, misturada entre os colegas no jogo das máscaras sentia-me “normal”, não estava em causa o problema mas a minha sociabilidade da qual adaptei e posso dizer que cresci no sítio privilegiado onde desenvolvi as diversas capacidades fortalecendo as outras defesas que mais tarde foram determinantes.

(… tem continuidade …)
P.SCampeonato Nacional Universitário, dia 07 de Maio pelas 9h30 ás 18h - Pavilhão da Escola Secundária da Miratejo - GO TO!

22 abril, 2006

Finalista Desnorteada III


O instante fulminante parecia durar horas e horas no gabinete do executivo, segurando o saco de gelo na minha face golpeada onde transparecia uma coloração púrpura e pude sentir periodicamente pontadas de dor.
Tal era a perseverança de não perder as minhas estribeiras perante a sua presença que me incomodava, só desejava dar-lhe a maior sova da sua vida!
Como isso não aconteceu, decidi manter-me calma e contar toda a veracidade do sucedido e a única resposta que obtivemos da responsável:

- Bom, isso compete a vocês os dois pedirem as desculpas uns ao outro pelos actos referidos e espero que resolvem a vossa incompatibilidade antes que vos aconteça algo. Ainda mais, quero-vos ver sair daqui de mãos dadas.

Incrédula perante o comentário, que queria ela dizer? Incompatibilidade, mas que palavra tão forasteira! Nesse dia criei uma gazeta de vocabulários desconhecidos, a sonoridade labial na locução insondada era deveras mirabolante que me seduzia uma musicalidade singular.
Entretanto, estivemos ambos na defensiva de dar o primeiro passo. Só via o braço dele a erguer-se e o seu olhar mostrava um arrependimento patente, fiquei receosa com a súbita mudança de comportamento onde manifestei a total desconfiança.
Será que estava a ser sincero? Ou queria sair de lá o mais rapidamente possível para ter com os colegas? Resolvi arriscar, aceitei as desculpas tanto como ele a mim e saímos pela porta fora de mãos dadas, contrariados.
Desde então não houve mais problemas e chatices, passando um tempo a campainha tinha tocado, só que não ouvia e fui logo abordada por uma amiga. Entramos ambas para a sala, onde alguém queria falar connosco e apareceu a educadora I. vestida de fato de banho com calções amarelados.
Murmúrios exaltados e ruidosos, cadeiras arrastadas perante o espanto imprevisto que acabaram por soltar gritos eufóricos, claro eu feita de parva! Dialoguei silenciosamente:

- O quê? Vamos para a praia? Mas então não trouxe o meu fato de banho!
- Nua, é que não vou!

A educadora I dirigiu em minha direcção e bastou-lhe dizer uma simples frase como se tivesse lido os meus pensamentos irrequietos:

- Memorex vai buscar a tua mala que está lá o teu fato de banho, mas não demores para depois pores no teu pescoço, a etiqueta do colégio.

Todos os colegas finalistas do quarto ano, inclusive eu começamos a cantarolar bem alto dentro da camioneta desocupada a caminho para a praia de Fonte da Telha:

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, VIVA A NOSSA CAMIONETA! LÀ, LÀ, LÀ! VIVA A NOSSA CAMIONETA!

(… tem continuidade …)

03 abril, 2006

Desafiar a Autoridade


Procurava um hino de superioridade diante dos mais velhos ou seja, testava a agudeza de domar o risco perante a postura inexperiente. O feitio intransigente incorporado na cumplicidade muda, o temperamento sereno por vezes traiçoeiro na metamorfose episódica.
Os meus progenitores ensinaram-me deste muito cedo ser consciente pelos actos, houve alturas que argumentava a acepção da responsabilidade. Então o que era ser inconsciente? Qual era o flanco inverso da irresponsabilidade?
Restava-me desmascarar a bruma vedada dentro de um grande cofre sólido, cercado em sistemas de alta segurança, a ambição indiscreta vagueava pausadamente no aperto âmago de ser apanhada em flagrante. Nada disso se verificou, os alarmes não agitaram e tudo permanecia calmo, silente e cheio de humidade numa escuridão que os brilhos avermelhados acediam e apagavam automaticamente como os de ambulância.
Tudo tornara complicado em desvendar o código, letras de R-I-P-A-S-O-B-N-L-P-E-D misturadas na horizontalidade e verticalidade. Trata-se de um jogo mental, esforçadamente construo cálculos e fez luz! Giro o botão cuidadosamente começando por I-R-R-E-S-P-O-N-S-A-B-I-L-I-D-A-D-E, e num ápice a porta de aço abre.
Atónita e céptica ao avistar o lugar, permanece um dicionário ilustrado acima do planalto e desfechei as folhas, procurando a caligrafia I. Achei-o ali mesmo, na página 308 – «irresponsabilidade»: inconsciente – ignorância – irrespeitável – superioridade – domínio – desafiar a autoridade.
As duas últimas palavras «desafiar a autoridade» seduzira-me no piscar e fechar os olhos, querendo apalpar o transe do risco, a vacilação de entrar ou não dentro do supermercado era imparcial no medo assombroso que sentira. Mal invadi o estabelecimento com toda a naturalidade de que não estava a acontecer nada de suspeito, senão meramente um exame ás minhas capacidades infiltradas no mundo adulto.
Avançava pelas divisões separadas, via prateleiras de chocolates apetitosos, bolachas saborosas, latas de salsichas e cogumelos, pacotes de batatas fritas e uma base gigantesca de guloseimas.
Já escolhera o alvo, olhava para todos os cantos estudando as probabilidades de não ser capturada pelo dono da loja mas ele estava no fundo da esquina a olhar para mim, esboçando um sorriso forçado.
Tive retomar outra alternativa, recomeçar do zero de modo divergente para que não desconfiasse do meu plano. Tudo alterara com o aparecimento de um amigo, aquele que andara na creche também ele sendo surdo, era o P.
Ainda mais empolgada, falei gestualmente dizendo-lhe para entreter o dono na desculpa de pedir algo e fizesse não compreender o que ele dizia, dando-me tempo para o furto iminente. O P estranhou-se e com a sua expressão estupefacta negou-me, supliquei-lhe na promessa de lhe dar a minha quota-parte, após a reflexão aceitou a proposta.
Passando um segundo, tentei conter as gargalhadas ao assistir a cena, a dificuldade hilariante do dono era de tal modo desesperante, apavorado pela incompreensão gestual e o P levantava a voz, fingindo estar revoltado pelo seu desentendimento. Aproveitei o momento fulcral da roubadela, enchi-me de coragem destapando as caixas das gomas e meti-as apressadamente dentro dos meus bolsos, quase cheios!

Dirigi-me ao balcão, ajudando o dono na tamanha atrapalhada
- Posso ajudá-lo?
- Achas que és capaz de me ajudar?
- Ajudar? Depende da ajuda…
- Bom, é que não consigo compreender este rapaz. O que ele quer?
- Ele pediu um sumo de laranja.
- Ah, puxa tanta confusão por um sumo de laranja!
Saímos de lá complentamente eufóricos! Corremos em direcção ao parque e por fim dei-lhe a outra metade... inesquecível!
P.S-» a história intitulada de "Finalista Desnorteada III" será postada depois das férias de Páscoa, desejo-vos uma Boa Páscoa cheio de chocolates e uma grande concentração nas estradas portuguesas!

30 março, 2006

Disparidades!


As palavras tem o poder de mudar as perspectivas, consoante a nós próprios apesar de dispor uma certa autoridade na influência dominada pela cultura linguística, relativamente ao intelecto.
Existem pessoas, até mesmo aquelas que conhecemos durante a vida não tem a exacta noção do que acabaram por dizer inconscientemente, sem pensar o quão podem magoar ao proferir essas palavras.
Por vezes desejando não ouvir o dilatar labial, aquela típica frase interdita " Ai, ainda bem que não ouves para aturares..." fico inerte, de corpo paralisado! Habitando no consolo do silêncio, os pensamentos fervilham com a lentidão das imagens apanhadas e transpareciam bolhas melindradas nos poros da susceptibilidade. Secretamente, penso com a claridade da minha existência e perdoando a eles pois não sabem do que falam, não conseguem imaginar um mundo radicalmente diferente, aliás não fazem ideia do que é não ouvir numa sociedade demasiado empolgada pelo consumo.
Como podem eles dizer uma coisa dessas? Como tem a coragem de me dizer na cara? È preferível pensar antes de falar, porque também sou um ser-humano e tenho os mesmos sentimentos como qualquer pessoa...! Fiquei revoltada, senti-me misérivel perante um comentário desses... Apetecia-me tanto dar-lhes uma bofetada na cara, mas das grandes!
"Pensam que a minha vida é fácil? Não é! È complicado, é lutar contra as barreiras da sociedade, é ombrear lado a lado as pessoas intolerantes e ignorantes como um jogo competitivo onde a vitória dá-lhe mais prazer, mas a derrota é a coisa mais bela do mundo! Faz-nos levantar, faz-nos viver ainda mais para lutar aquilo que acreditamos realmente: mudar a mentalidade!"
QUE RAIVA!

23 março, 2006

Finalista Desnorteada II


A desumanidade das palavras maléficas projectara em mim, um tormento atroz dos torpedos disparados. Agarrei o bisturi, retirando demoradamente as balas perdidas no colete-de-forças, tento conseguido remover apenas três: o da atrocidade, o da cruealdade intolerável e o da indiferença para dentro do saco de provas.
Guardei-as generosamente na palma da mão, levantando voo em direcção ao meu coração para depois retribuir a minha fúria numa tempestade sumptuosa, disparando aguaceiros de jumbo. Lançado granadas explosivas em pleno ar, as lágrimas purificadas transformara magicamente em bestas afinadas e as balas perdidas moldaria a sua verdadeira personalidade em setas de prata.
Sentada na mesa, rodeada de colegas e juntos fizemos uma tarefa importante, recortando papéis aos quadradinhos e escrevendo dedicatórias em palavras douradas, craindo a moldura de brincolagem artificial, era porém a nossa ultima lembrança para recordar no resto da vida.
Trabalhos terminados, seguíamos a caminho do refeitório onde íamos almoçar mas neste preciso momento instala-se uma confusão para os lugares pretendidos. O soalho estava molhado e ninguém tinha apercebido, dei uma escorregadela monumental que por crer fiz descair os outros, um deles era o Bruno.
A frialdade expressiva no seu rosto moreno, os olhos castanhos contrariados e os dentes apavorados de enfurecimento, levantou-se sem dizer uma palavra e deu meia volta. Respirei de alívio, assentei-me e a meu lado havia um lugar vazio, mal esperava ele sentara aí com um riso malicioso.
- Memorex, é melhor não me chateares!
Fiz de conta que não tinha compreendido, mantive indiferente á sua presença, almoçando pacientemente e dialogando com a Andreia sentada á minha frente no meio de tantos rugidos. Inopinadamente, levei uma cotovelada deixando cair pedaços de arroz pela mesa. Perco a cabeça por um segundo!
- Não comeces!
- Já me fizeste ficar chateada, queres levar?!
Um doce sabor a vingança pairava como uma pena na cabeça, peguei no copo cheio de água e entornei-o no seu prato, satisfatoriamente! Os colegas riam-se desalmadamente e ele ficou tão calado que até o gato lhe comeu a língua, ofendido pela vergonha imensa de ser humilhado por uma rapariga. Pegou no utensílio metálico de quatro dentes espicaçados, iniciando uma distância percorrida rumo á minha face, ferindo-me sem piedade!
Fico paralisada perante tanta crueldade, de mão colocada no rosto e os olhares intimidados dos colegas fixavam-me profundamente. Vagarosamente fiz um movimento brusco, pontapeando e socando sem parar, ora puxava os cabelos e dando umas valentes bofedadas, sendo interropido pelas as duas professoras que nos separaram.
Silenciosamente, fomos para o executivo dar explicações do tal comportamento.
(... tem continuidade ...)

20 março, 2006

Finalista Desnorteada I


A Primavera, estação do primeiro ano acenou-me com afabilidade aprazível no adeus inevitável, na esperança de iluminar o meu sorriso em flores aromatizadas no próximo ano. Avista-se no horizonte uma mudança surreal do céu límpido sem nuvens a pairar, apenas o sol dá-me um abraço envolto de um círculo com esmaltes de ouro.
A tranquilidade é-me familiar, fico rendida aos seus afectos e encantos que me tratam como sua filha na designação comun de todos os corpos celestes, influenciada pela energia solar na esfera do Zodíaco e a permanente necessidade de mergulhar nos altos mares.
Um dia, as surpresas estavam embrulhadas em papéis boleados, de cores ás riscas. Tinha conseguido ultrapassar os obstáculos ao longo de quatro anos no Ensino Primário, sem ter reprovado uma classe.
Pórem, nesta altura durante a noite não tinha conseguido adormecer e as emoções eram tantas, assediavam os meus pensamentos acriançados. Acordei saturada de sono, meti-me de novo na cama e dez minutos depois a minha mãe destapou-me furiosamente os leçóis!
Sobressaltei de olhos semi-abertos, ainda meio sonolente tentado ler os lábios delicados e finos, cheios de expressividade daquela figura materna e elegante que transportava uma criança no ventre.
- Memorex! Acorda, já viste que horas são?!
- Ò mãe! Deixa-me dormir um bocadinho, está bem?
- Não é está bem, é já!
- Tenho de ir trabalhar, por isso filha despacha-te senão perdes a camioneta...
- Isto não é justo! Não tenho escola hoje!!
- Pois não, mas é o teu dia de Finalista, ou já esqueceste?!!
- Ahhh, é verdade!!!
Sai sa cama disparada que nem uma bola de canhão, vesti apinhada de pressa porque a camioneta ia passar pela avenida, e por um triz perdia a boleia! Caretas e sorrisos rasgados expostos na vidraça do transporte colegial, despedi da minha mãe depois dei um beijo ternurento na barriga orgulhosamente.
Subi, dei passos para ter com a Andreia mas fui barricada pelo Bruno. Este rapaz tinha sempre qualquer coisa nas mangas para me irritar, resumindo fazia a minha vida um inferno desde que entrei na creche, impulsivamente parei e disse-lhe:
- Bruno, deixa-me passar!
- Oh Memorex, não sabes dizer se faz favor?
- Eu a dizer se faz favor a um paspalho como tu?
- Cala-te! Não me chames isso senão levas!
- Coitado, deves pensar que tenho medo de ti! Põe-te é a milhas!
- Estás a pedi-las, Surda!!!
- O quê?! Que me chamaste?!! Repete lá o que disseste!
- Não repito! Tu percebeste muito bem Surda! Surda! Surda!
- Estás a gozar comigo, não é?! Não sou Surda! Tenho nome e é MEMOREX!!!
- O teu nome é S.U.R.D.A!
- OK, estás tramado!! (Dei uns valentes socos, e uns pontapés nas canelas, fiquei levissima e ele a chorar compulsivamente...!)
- Chamo-me MEMOREX!!! ESTÙPIDO!!
Avistei a minha melhor amiga, sentei-me a seu lado e não consegui conter as lágrimas da linguagem ofensiva dos torpedos labiais, acabados de serem antigidos na barreira da sensibilidade e disse baixinho: "Porque sou Surda? Porque eles não vêem que sou igual a eles? Sou assim tão diferente?"
A Andreia viu-me, disse-me para não ligar aquilo e de repente ao ver a queda das minhas lágrimas, chorámos as duas num abraço apertado e cheio de amizade.
(... tem continuidade ...)

18 março, 2006

Nova Particularidade

Prezados Bloguistas, tomei a iniciativa de criar um novo blogger desta vez dedicado ao meu Design Pessoal, portanto como sabemos o Design é um código enigmático na interpretação criativa dos cinco sentidos.
Uma linguagem que molda a sociedade através da metodologia intelectual e projectiva.
Espero que possam desfrutar este espaço artístico, e todas as críticas serão bem vidas.
Desejo-vos um bom Sábado!

15 março, 2006

As Algemas da Corrente Bloguista


Bom, demorei um tempinho a responder porque já tinha postado "O Acaso" e mais uma vez fui apanhada pelas Algemas da Corrente - Dona do excelente Blog - Baú do Silêncio.
Pretendo dedicar-lhe uma bonita homenagem:
Não sei se vou encontrar palavras adequadas dentro da minha cabeça mas vou deixar expremir pela espontaneidade que me caracteriza.
Querida SilenceBox, no dia 9 de Junho apareceste e deixaste o teu rasto no meu antigo site do msn, fui apanhada pela curiosidade gigantesca e resolvi vasculhar o teu Báu do Silêncio. Mal esperava o que me estava reservado, o meu coração emocionava ao ler cada frase e os meus olhares floresciam de contentamento, subitamente senti-me aliviada por saber que afinal existe alguém como "eu"!
Julgara que estava sozinha no mundo, navegando pelas ondas do silêncio na esperança de encontrar uma bóia de salvação.
Ao longo dos meses virtuais trocamos correspondência, cada uma via o blogger dos outros mas com certa ansiedade de reler os próximos posts e mais tarde deparámos nas coincidências vividas da forma como o rumo se tinha encaminhado de modo igual a uma de nós:
A perda de audição, a terapia de fala na oralidade, a escolaridade intregrada em turmas de ouvintes, tudo isto porém diversas afinidades.
Ès uma Pessoa e Mulher fantástica, mas muito especial de um grandioso coração dourado!
Sem mais palavras, carinhosamente Memorex.
Aqui vai a revelação das minhas cinco manias, na verdade tenho muitas!!!
1º- Não consigo resistir a um doce chocolate em barritas, como todos os dias um pedaço!
(Não me chamem gulosa, são obrigações de desportista... ehehe, tenho sorte!)
2º- Tenho a certa mania de ser uma autêntica arrogante para com desconhecidos.
(Caros amigos, não liguem a isso tá?! Descansem que com vocês não sou assim!)
3º- Gasto toneladas de euros em revistas de publicidade, fotografia, jornais e LIVROS!
(Aí coitada da minha mãe, não tenho culpa de ter o meu quarto cheios deles e necessito de ler palavras!)
4º- Desde que ninguém se meta comigo quando estiver de mau HUMOR, ai a impulsividade!
(O melhor é fugirem a sete mil pés! Senão... não digo nada!)
5º- A perdição dos Ténis confortáveis, resumido leves e desportivos que até chego exagerar!
(Hui, para a próxima tenho de ter cuidado com os euros... Marcas? Nem posso vê-los!)

As próximas cinco vitímas serão estes mas será que tem a amabilidade de continuar a corrente? Pensamentos do João, Diferença de Idade, FotoEscrita, Diafragma e MeninaMoranguinha.

[Cada bloguista participante tem de enumerar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que o diferenciem do comum dos mortais. E, além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue.]

13 março, 2006

O Acaso


Em todo o instante somos confrontados pelo princípio do acaso, mas quando falo de acasos refiro-me no condão da frivolidade. Apesar de não fazer nenhum sentido, a hesitação flutuante rompe a obscenidade da estranheza invulgar.
Posso imaginar, ao pegar o cd-rom e posteriormente a ter colocado no dedo, fi-la girar com ligeireza. A celeridade fugaz era de tal modo estridente, no ponto de mirar as linhas giratórias para além do horizonte uma reflexão ponderada e simultaneamente no acto de reflectir a sugestão de dois pensamentos confundidos.
Tal como se sucede na vida, a coincidência é um fruto do acaso entre dois acontecimentos inalterados e por mais extraordinário que sejam, não têm nenhuma justificação concreta.
Devo dizer, numa certa noite estava sonhando e mal acordei de manhã as coisas desenrolavam harmoniosamente com simplicidade, á medida que ia acontecendo não tinha dado importância mas subitamente notei que já tinha vivido este dia. Estranho, não é? De facto é impróprio e por outro lado surpreendente a capacidade da imprevisibilidade, entretanto interrogo-me constantemente disto até saber o porquê.

Confesso intimamente, que até me mete receio por isto estar acontecer vezes sem conta!
Será um acaso, uma coincidência ou outro imperativo qualquer?!
P.S- Precisei de desabafar!