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21 maio, 2006

Finalista Desnorteada V


Jornadeava pelo areal salgado com os meus amigos, os nossos corpos estavam esculpidos em partículas granulosas de natureza marítima. A descontracção pacífica fora quebrada com o à-vontade exemplar da bomba amolecida que nos atingiu sob a pele bronzeada e do olhar cintilante e brincalhão do F.
Elegante e ao mesmo tempo refinado, excepcionalmente bonito de ombros largos e entremostrava um riso ténue, aquele sorriso radiava um fascínio único e absoluto.
Os nossos dedos salpicavam palavras soltas, tapando a boca de lado como uma barreira para que não se tornasse visível ao F e nós um pequeno grupo de destacamento colégio-militar tínhamos uma missão surpresa.
Estávamos ansiosos!
Assim começamos a primeira ordem, lançar o bombardeamento gigantesco de lama ao alvo, foi deveras hilariante! Só via ele a correr, a ser atingido e a tropeçar nos buracos movediços, afadigado pela correria toda mas não desistia, prolongava-se com a persistência de não ser capturado.
Mais tarde por culpa da sua desconcentração iminente, apanhamo-lo finalmente. Um de nós agarrou-lhe pelos pulsos e nos tornozelos, aproximamo-nos junto á água e vimos a face horrorizada do F: renhido e obstinado a implorar-nos! Gracejávamos em voz alta, sonoramente.
Fizemos movimentos de quem se baloiça, a densidade do seu peso custava-nos aguentar por mais tempo até não podermos mais, soltamos-lhe para um lançamento memorável na queda aquática!
Neste preciso momento, as educadoras de infância ordenaram-nos para sentarmos nas toalhas. Desanimados, com as cabeças cabisbaixas brincando os dedos na areia a dar-nos uma lição de ingenuidade.

- Meninos! O que vos passou pela cabeça fazer esta brincadeira ao vosso colega? O F podia ter-se magoado!
- Só estávamos a brincar.
- A brincar?
- Sim, a brincar porque ele atirou-nos areia e nós queríamos uma vingança!
- Ah? Ò F, isto é verdade?
- Sim, é!
- Pronto, vamos lá para a água tirar esta areia toda mas com uma condição: quero que façam uma fila um a um.
- Mas I é para quê?!
- Depois vão ver, agora tocam a levantar e metam-se em fila.

Levantamos e pomo-nos em fila, estava eu no meio assistir esta atrapalhada toda dialogando com o F, a A e a S. Não durou muito tempo para perceber o que as educadoras pretendiam fazer-nos: um lançamento aquático!
(... tem continuidade ...)
Paragem Obrigatória: Intimidades

05 maio, 2006

Finalista Desnorteada IV


O dia estava de longe por finalizar, era de tarde onde o sol chamejava ardências em toda a superfície e dentro do autocarro, continuávamos a gritar incansavelmente.
Assentada na última fila, murmurava aos segredinhos com a Andreia que por vezes soltava uma estrondosa gargalhada da qual não conseguia conter o riso. A alegria transbordante no seu rosto enfeitava uma perfeição desusada, no meio dos seus cabelos indisciplinados que lhe tapavam os olhos.
A meiguice dos lábios mexiam com lentidão, para eu puder ler claramente sem dificuldades, a animação verbal. Pus-me de joelhos apoiados no exterior do banco e fizemos travessuras através da pedra-pomes para os automobilistas que seguiam atrás de nós.
Existia uma fileira de carros até ao cruzamento, nesta circunstância fraccionada descíamos da colina espiral e contemplamos o mar azul recheado de pequenos diamantes aureolados e as ondas arrebentavam serenamente como conchas.
O cheiro da maresia era doce, suave e empolgante. A paisagem imponente fora moldada pela força da natureza há milhões de anos, desenhando um belo quadro capaz de cortar a respiração!
Grandes pássaros sobrevoam o Olimpo, são dezenas pára-quedas em arco-íris que perfumam o belo azul em trinchas pitorescas. Fico abismada sobre o notável entretimento das coisas, tal é a simplicidade do próprio mundo ser despreocupado e ao mesmo tempo tão alegre para atenuar o peso da maldade, da arrogância e violência dos seres humanos.
Excitados pela proximidade de pisar os pés descalços nos grãos de areia, formámos uma fila a dois de mãos dadas e lá fomos procurar um lugar adequado. Desajeitada, com aflição sentia os pés a serem queimados por uma frigideira!
Laçamos as toalhas sobre a areia, com protector solar no corpo. Corremos tanto, mas quanta força existe por detrás da vitalidade? Quando somos crianças, não queremos parar senão estar sempre em movimento constante alimentado a bisbilhotice do desconhecido e cada achado era uma explosão surpreendente!
Ali, misturada entre os colegas no jogo das máscaras sentia-me “normal”, não estava em causa o problema mas a minha sociabilidade da qual adaptei e posso dizer que cresci no sítio privilegiado onde desenvolvi as diversas capacidades fortalecendo as outras defesas que mais tarde foram determinantes.

(… tem continuidade …)
P.SCampeonato Nacional Universitário, dia 07 de Maio pelas 9h30 ás 18h - Pavilhão da Escola Secundária da Miratejo - GO TO!

22 abril, 2006

Finalista Desnorteada III


O instante fulminante parecia durar horas e horas no gabinete do executivo, segurando o saco de gelo na minha face golpeada onde transparecia uma coloração púrpura e pude sentir periodicamente pontadas de dor.
Tal era a perseverança de não perder as minhas estribeiras perante a sua presença que me incomodava, só desejava dar-lhe a maior sova da sua vida!
Como isso não aconteceu, decidi manter-me calma e contar toda a veracidade do sucedido e a única resposta que obtivemos da responsável:

- Bom, isso compete a vocês os dois pedirem as desculpas uns ao outro pelos actos referidos e espero que resolvem a vossa incompatibilidade antes que vos aconteça algo. Ainda mais, quero-vos ver sair daqui de mãos dadas.

Incrédula perante o comentário, que queria ela dizer? Incompatibilidade, mas que palavra tão forasteira! Nesse dia criei uma gazeta de vocabulários desconhecidos, a sonoridade labial na locução insondada era deveras mirabolante que me seduzia uma musicalidade singular.
Entretanto, estivemos ambos na defensiva de dar o primeiro passo. Só via o braço dele a erguer-se e o seu olhar mostrava um arrependimento patente, fiquei receosa com a súbita mudança de comportamento onde manifestei a total desconfiança.
Será que estava a ser sincero? Ou queria sair de lá o mais rapidamente possível para ter com os colegas? Resolvi arriscar, aceitei as desculpas tanto como ele a mim e saímos pela porta fora de mãos dadas, contrariados.
Desde então não houve mais problemas e chatices, passando um tempo a campainha tinha tocado, só que não ouvia e fui logo abordada por uma amiga. Entramos ambas para a sala, onde alguém queria falar connosco e apareceu a educadora I. vestida de fato de banho com calções amarelados.
Murmúrios exaltados e ruidosos, cadeiras arrastadas perante o espanto imprevisto que acabaram por soltar gritos eufóricos, claro eu feita de parva! Dialoguei silenciosamente:

- O quê? Vamos para a praia? Mas então não trouxe o meu fato de banho!
- Nua, é que não vou!

A educadora I dirigiu em minha direcção e bastou-lhe dizer uma simples frase como se tivesse lido os meus pensamentos irrequietos:

- Memorex vai buscar a tua mala que está lá o teu fato de banho, mas não demores para depois pores no teu pescoço, a etiqueta do colégio.

Todos os colegas finalistas do quarto ano, inclusive eu começamos a cantarolar bem alto dentro da camioneta desocupada a caminho para a praia de Fonte da Telha:

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, VIVA A NOSSA CAMIONETA! LÀ, LÀ, LÀ! VIVA A NOSSA CAMIONETA!

(… tem continuidade …)

03 abril, 2006

Desafiar a Autoridade


Procurava um hino de superioridade diante dos mais velhos ou seja, testava a agudeza de domar o risco perante a postura inexperiente. O feitio intransigente incorporado na cumplicidade muda, o temperamento sereno por vezes traiçoeiro na metamorfose episódica.
Os meus progenitores ensinaram-me deste muito cedo ser consciente pelos actos, houve alturas que argumentava a acepção da responsabilidade. Então o que era ser inconsciente? Qual era o flanco inverso da irresponsabilidade?
Restava-me desmascarar a bruma vedada dentro de um grande cofre sólido, cercado em sistemas de alta segurança, a ambição indiscreta vagueava pausadamente no aperto âmago de ser apanhada em flagrante. Nada disso se verificou, os alarmes não agitaram e tudo permanecia calmo, silente e cheio de humidade numa escuridão que os brilhos avermelhados acediam e apagavam automaticamente como os de ambulância.
Tudo tornara complicado em desvendar o código, letras de R-I-P-A-S-O-B-N-L-P-E-D misturadas na horizontalidade e verticalidade. Trata-se de um jogo mental, esforçadamente construo cálculos e fez luz! Giro o botão cuidadosamente começando por I-R-R-E-S-P-O-N-S-A-B-I-L-I-D-A-D-E, e num ápice a porta de aço abre.
Atónita e céptica ao avistar o lugar, permanece um dicionário ilustrado acima do planalto e desfechei as folhas, procurando a caligrafia I. Achei-o ali mesmo, na página 308 – «irresponsabilidade»: inconsciente – ignorância – irrespeitável – superioridade – domínio – desafiar a autoridade.
As duas últimas palavras «desafiar a autoridade» seduzira-me no piscar e fechar os olhos, querendo apalpar o transe do risco, a vacilação de entrar ou não dentro do supermercado era imparcial no medo assombroso que sentira. Mal invadi o estabelecimento com toda a naturalidade de que não estava a acontecer nada de suspeito, senão meramente um exame ás minhas capacidades infiltradas no mundo adulto.
Avançava pelas divisões separadas, via prateleiras de chocolates apetitosos, bolachas saborosas, latas de salsichas e cogumelos, pacotes de batatas fritas e uma base gigantesca de guloseimas.
Já escolhera o alvo, olhava para todos os cantos estudando as probabilidades de não ser capturada pelo dono da loja mas ele estava no fundo da esquina a olhar para mim, esboçando um sorriso forçado.
Tive retomar outra alternativa, recomeçar do zero de modo divergente para que não desconfiasse do meu plano. Tudo alterara com o aparecimento de um amigo, aquele que andara na creche também ele sendo surdo, era o P.
Ainda mais empolgada, falei gestualmente dizendo-lhe para entreter o dono na desculpa de pedir algo e fizesse não compreender o que ele dizia, dando-me tempo para o furto iminente. O P estranhou-se e com a sua expressão estupefacta negou-me, supliquei-lhe na promessa de lhe dar a minha quota-parte, após a reflexão aceitou a proposta.
Passando um segundo, tentei conter as gargalhadas ao assistir a cena, a dificuldade hilariante do dono era de tal modo desesperante, apavorado pela incompreensão gestual e o P levantava a voz, fingindo estar revoltado pelo seu desentendimento. Aproveitei o momento fulcral da roubadela, enchi-me de coragem destapando as caixas das gomas e meti-as apressadamente dentro dos meus bolsos, quase cheios!

Dirigi-me ao balcão, ajudando o dono na tamanha atrapalhada
- Posso ajudá-lo?
- Achas que és capaz de me ajudar?
- Ajudar? Depende da ajuda…
- Bom, é que não consigo compreender este rapaz. O que ele quer?
- Ele pediu um sumo de laranja.
- Ah, puxa tanta confusão por um sumo de laranja!
Saímos de lá complentamente eufóricos! Corremos em direcção ao parque e por fim dei-lhe a outra metade... inesquecível!
P.S-» a história intitulada de "Finalista Desnorteada III" será postada depois das férias de Páscoa, desejo-vos uma Boa Páscoa cheio de chocolates e uma grande concentração nas estradas portuguesas!

30 março, 2006

Disparidades!


As palavras tem o poder de mudar as perspectivas, consoante a nós próprios apesar de dispor uma certa autoridade na influência dominada pela cultura linguística, relativamente ao intelecto.
Existem pessoas, até mesmo aquelas que conhecemos durante a vida não tem a exacta noção do que acabaram por dizer inconscientemente, sem pensar o quão podem magoar ao proferir essas palavras.
Por vezes desejando não ouvir o dilatar labial, aquela típica frase interdita " Ai, ainda bem que não ouves para aturares..." fico inerte, de corpo paralisado! Habitando no consolo do silêncio, os pensamentos fervilham com a lentidão das imagens apanhadas e transpareciam bolhas melindradas nos poros da susceptibilidade. Secretamente, penso com a claridade da minha existência e perdoando a eles pois não sabem do que falam, não conseguem imaginar um mundo radicalmente diferente, aliás não fazem ideia do que é não ouvir numa sociedade demasiado empolgada pelo consumo.
Como podem eles dizer uma coisa dessas? Como tem a coragem de me dizer na cara? È preferível pensar antes de falar, porque também sou um ser-humano e tenho os mesmos sentimentos como qualquer pessoa...! Fiquei revoltada, senti-me misérivel perante um comentário desses... Apetecia-me tanto dar-lhes uma bofetada na cara, mas das grandes!
"Pensam que a minha vida é fácil? Não é! È complicado, é lutar contra as barreiras da sociedade, é ombrear lado a lado as pessoas intolerantes e ignorantes como um jogo competitivo onde a vitória dá-lhe mais prazer, mas a derrota é a coisa mais bela do mundo! Faz-nos levantar, faz-nos viver ainda mais para lutar aquilo que acreditamos realmente: mudar a mentalidade!"
QUE RAIVA!

23 março, 2006

Finalista Desnorteada II


A desumanidade das palavras maléficas projectara em mim, um tormento atroz dos torpedos disparados. Agarrei o bisturi, retirando demoradamente as balas perdidas no colete-de-forças, tento conseguido remover apenas três: o da atrocidade, o da cruealdade intolerável e o da indiferença para dentro do saco de provas.
Guardei-as generosamente na palma da mão, levantando voo em direcção ao meu coração para depois retribuir a minha fúria numa tempestade sumptuosa, disparando aguaceiros de jumbo. Lançado granadas explosivas em pleno ar, as lágrimas purificadas transformara magicamente em bestas afinadas e as balas perdidas moldaria a sua verdadeira personalidade em setas de prata.
Sentada na mesa, rodeada de colegas e juntos fizemos uma tarefa importante, recortando papéis aos quadradinhos e escrevendo dedicatórias em palavras douradas, craindo a moldura de brincolagem artificial, era porém a nossa ultima lembrança para recordar no resto da vida.
Trabalhos terminados, seguíamos a caminho do refeitório onde íamos almoçar mas neste preciso momento instala-se uma confusão para os lugares pretendidos. O soalho estava molhado e ninguém tinha apercebido, dei uma escorregadela monumental que por crer fiz descair os outros, um deles era o Bruno.
A frialdade expressiva no seu rosto moreno, os olhos castanhos contrariados e os dentes apavorados de enfurecimento, levantou-se sem dizer uma palavra e deu meia volta. Respirei de alívio, assentei-me e a meu lado havia um lugar vazio, mal esperava ele sentara aí com um riso malicioso.
- Memorex, é melhor não me chateares!
Fiz de conta que não tinha compreendido, mantive indiferente á sua presença, almoçando pacientemente e dialogando com a Andreia sentada á minha frente no meio de tantos rugidos. Inopinadamente, levei uma cotovelada deixando cair pedaços de arroz pela mesa. Perco a cabeça por um segundo!
- Não comeces!
- Já me fizeste ficar chateada, queres levar?!
Um doce sabor a vingança pairava como uma pena na cabeça, peguei no copo cheio de água e entornei-o no seu prato, satisfatoriamente! Os colegas riam-se desalmadamente e ele ficou tão calado que até o gato lhe comeu a língua, ofendido pela vergonha imensa de ser humilhado por uma rapariga. Pegou no utensílio metálico de quatro dentes espicaçados, iniciando uma distância percorrida rumo á minha face, ferindo-me sem piedade!
Fico paralisada perante tanta crueldade, de mão colocada no rosto e os olhares intimidados dos colegas fixavam-me profundamente. Vagarosamente fiz um movimento brusco, pontapeando e socando sem parar, ora puxava os cabelos e dando umas valentes bofedadas, sendo interropido pelas as duas professoras que nos separaram.
Silenciosamente, fomos para o executivo dar explicações do tal comportamento.
(... tem continuidade ...)

20 março, 2006

Finalista Desnorteada I


A Primavera, estação do primeiro ano acenou-me com afabilidade aprazível no adeus inevitável, na esperança de iluminar o meu sorriso em flores aromatizadas no próximo ano. Avista-se no horizonte uma mudança surreal do céu límpido sem nuvens a pairar, apenas o sol dá-me um abraço envolto de um círculo com esmaltes de ouro.
A tranquilidade é-me familiar, fico rendida aos seus afectos e encantos que me tratam como sua filha na designação comun de todos os corpos celestes, influenciada pela energia solar na esfera do Zodíaco e a permanente necessidade de mergulhar nos altos mares.
Um dia, as surpresas estavam embrulhadas em papéis boleados, de cores ás riscas. Tinha conseguido ultrapassar os obstáculos ao longo de quatro anos no Ensino Primário, sem ter reprovado uma classe.
Pórem, nesta altura durante a noite não tinha conseguido adormecer e as emoções eram tantas, assediavam os meus pensamentos acriançados. Acordei saturada de sono, meti-me de novo na cama e dez minutos depois a minha mãe destapou-me furiosamente os leçóis!
Sobressaltei de olhos semi-abertos, ainda meio sonolente tentado ler os lábios delicados e finos, cheios de expressividade daquela figura materna e elegante que transportava uma criança no ventre.
- Memorex! Acorda, já viste que horas são?!
- Ò mãe! Deixa-me dormir um bocadinho, está bem?
- Não é está bem, é já!
- Tenho de ir trabalhar, por isso filha despacha-te senão perdes a camioneta...
- Isto não é justo! Não tenho escola hoje!!
- Pois não, mas é o teu dia de Finalista, ou já esqueceste?!!
- Ahhh, é verdade!!!
Sai sa cama disparada que nem uma bola de canhão, vesti apinhada de pressa porque a camioneta ia passar pela avenida, e por um triz perdia a boleia! Caretas e sorrisos rasgados expostos na vidraça do transporte colegial, despedi da minha mãe depois dei um beijo ternurento na barriga orgulhosamente.
Subi, dei passos para ter com a Andreia mas fui barricada pelo Bruno. Este rapaz tinha sempre qualquer coisa nas mangas para me irritar, resumindo fazia a minha vida um inferno desde que entrei na creche, impulsivamente parei e disse-lhe:
- Bruno, deixa-me passar!
- Oh Memorex, não sabes dizer se faz favor?
- Eu a dizer se faz favor a um paspalho como tu?
- Cala-te! Não me chames isso senão levas!
- Coitado, deves pensar que tenho medo de ti! Põe-te é a milhas!
- Estás a pedi-las, Surda!!!
- O quê?! Que me chamaste?!! Repete lá o que disseste!
- Não repito! Tu percebeste muito bem Surda! Surda! Surda!
- Estás a gozar comigo, não é?! Não sou Surda! Tenho nome e é MEMOREX!!!
- O teu nome é S.U.R.D.A!
- OK, estás tramado!! (Dei uns valentes socos, e uns pontapés nas canelas, fiquei levissima e ele a chorar compulsivamente...!)
- Chamo-me MEMOREX!!! ESTÙPIDO!!
Avistei a minha melhor amiga, sentei-me a seu lado e não consegui conter as lágrimas da linguagem ofensiva dos torpedos labiais, acabados de serem antigidos na barreira da sensibilidade e disse baixinho: "Porque sou Surda? Porque eles não vêem que sou igual a eles? Sou assim tão diferente?"
A Andreia viu-me, disse-me para não ligar aquilo e de repente ao ver a queda das minhas lágrimas, chorámos as duas num abraço apertado e cheio de amizade.
(... tem continuidade ...)

18 março, 2006

Nova Particularidade

Prezados Bloguistas, tomei a iniciativa de criar um novo blogger desta vez dedicado ao meu Design Pessoal, portanto como sabemos o Design é um código enigmático na interpretação criativa dos cinco sentidos.
Uma linguagem que molda a sociedade através da metodologia intelectual e projectiva.
Espero que possam desfrutar este espaço artístico, e todas as críticas serão bem vidas.
Desejo-vos um bom Sábado!

15 março, 2006

As Algemas da Corrente Bloguista


Bom, demorei um tempinho a responder porque já tinha postado "O Acaso" e mais uma vez fui apanhada pelas Algemas da Corrente - Dona do excelente Blog - Baú do Silêncio.
Pretendo dedicar-lhe uma bonita homenagem:
Não sei se vou encontrar palavras adequadas dentro da minha cabeça mas vou deixar expremir pela espontaneidade que me caracteriza.
Querida SilenceBox, no dia 9 de Junho apareceste e deixaste o teu rasto no meu antigo site do msn, fui apanhada pela curiosidade gigantesca e resolvi vasculhar o teu Báu do Silêncio. Mal esperava o que me estava reservado, o meu coração emocionava ao ler cada frase e os meus olhares floresciam de contentamento, subitamente senti-me aliviada por saber que afinal existe alguém como "eu"!
Julgara que estava sozinha no mundo, navegando pelas ondas do silêncio na esperança de encontrar uma bóia de salvação.
Ao longo dos meses virtuais trocamos correspondência, cada uma via o blogger dos outros mas com certa ansiedade de reler os próximos posts e mais tarde deparámos nas coincidências vividas da forma como o rumo se tinha encaminhado de modo igual a uma de nós:
A perda de audição, a terapia de fala na oralidade, a escolaridade intregrada em turmas de ouvintes, tudo isto porém diversas afinidades.
Ès uma Pessoa e Mulher fantástica, mas muito especial de um grandioso coração dourado!
Sem mais palavras, carinhosamente Memorex.
Aqui vai a revelação das minhas cinco manias, na verdade tenho muitas!!!
1º- Não consigo resistir a um doce chocolate em barritas, como todos os dias um pedaço!
(Não me chamem gulosa, são obrigações de desportista... ehehe, tenho sorte!)
2º- Tenho a certa mania de ser uma autêntica arrogante para com desconhecidos.
(Caros amigos, não liguem a isso tá?! Descansem que com vocês não sou assim!)
3º- Gasto toneladas de euros em revistas de publicidade, fotografia, jornais e LIVROS!
(Aí coitada da minha mãe, não tenho culpa de ter o meu quarto cheios deles e necessito de ler palavras!)
4º- Desde que ninguém se meta comigo quando estiver de mau HUMOR, ai a impulsividade!
(O melhor é fugirem a sete mil pés! Senão... não digo nada!)
5º- A perdição dos Ténis confortáveis, resumido leves e desportivos que até chego exagerar!
(Hui, para a próxima tenho de ter cuidado com os euros... Marcas? Nem posso vê-los!)

As próximas cinco vitímas serão estes mas será que tem a amabilidade de continuar a corrente? Pensamentos do João, Diferença de Idade, FotoEscrita, Diafragma e MeninaMoranguinha.

[Cada bloguista participante tem de enumerar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que o diferenciem do comum dos mortais. E, além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue.]

13 março, 2006

O Acaso


Em todo o instante somos confrontados pelo princípio do acaso, mas quando falo de acasos refiro-me no condão da frivolidade. Apesar de não fazer nenhum sentido, a hesitação flutuante rompe a obscenidade da estranheza invulgar.
Posso imaginar, ao pegar o cd-rom e posteriormente a ter colocado no dedo, fi-la girar com ligeireza. A celeridade fugaz era de tal modo estridente, no ponto de mirar as linhas giratórias para além do horizonte uma reflexão ponderada e simultaneamente no acto de reflectir a sugestão de dois pensamentos confundidos.
Tal como se sucede na vida, a coincidência é um fruto do acaso entre dois acontecimentos inalterados e por mais extraordinário que sejam, não têm nenhuma justificação concreta.
Devo dizer, numa certa noite estava sonhando e mal acordei de manhã as coisas desenrolavam harmoniosamente com simplicidade, á medida que ia acontecendo não tinha dado importância mas subitamente notei que já tinha vivido este dia. Estranho, não é? De facto é impróprio e por outro lado surpreendente a capacidade da imprevisibilidade, entretanto interrogo-me constantemente disto até saber o porquê.

Confesso intimamente, que até me mete receio por isto estar acontecer vezes sem conta!
Será um acaso, uma coincidência ou outro imperativo qualquer?!
P.S- Precisei de desabafar!

09 março, 2006

Queda Aparatosa


Tinha-se transcorrido o período dos aguaceiros, os dias das nuvens acinzentadas e turbulentos vendavais cuspiam selvaticamente relâmpagos. Odiava a sensibilidade do frio gélido, que violava o pacto de imunidade permanecido impetuosamente dentro do meu corpo de juvenilidade.
O encanto da Primavera florescia na fragrância de um aroma perfumado, na fidelidade da Roda de vida. A grande Roda que inspira naturalmente a sua cadência, e rejuvenesce os descampados verdejantes de roedores, de aves rapinas audaciosas a voarem docemente sem fronteiras.
Borboletas de asas coloridas irradiando toda a sua pureza, é impressionante o caudal artístico que as imana, uma aura intacta.
Bem-aventurada, pego na bicicleta de mudanças e desço cuidadosamente das escadas do prédio. Antes de partir, confirmo se os pneus têm ar, coloco os pés nos pedais e começo andar devagarinho pela calçada.
Paro, olho nos dois lados da estrada e sigo em frente. Vou pedalando na corrente do trilho e descubro um novo acaso: o bairro mostra incredulamente a ambiguidade de duas realidades intemporais, a vila antiga e a cidade nova.
A desconformidade do inexplorado impressionou-me na subtileza ilustrada de uma década que os separam, do passado e ao mesmo tempo da actualidade, levando-me para um mundo abundamente incoerente.
Mais adiante, antevejo uma rampa obliqua num ângulo aproximadamente 120ª graus e poderia dizer com toda a certeza, é a minha descida preferida na dualidade acromática. Liderava o velocípede de duas rodas como se tivesse labaredas nos pedais e o gosto pela velocidade mexia comigo!
O sentir da brisa a tocar na face, o comando na orientação das rodas apressadas e o instinto avisava-me para abrandar, a sensação era de um êxtase inabalável! Neguei voluntariamente da advertência que não deu para evitar o perigo. O percurso da rampa tinha chegado ao fim, logo à frente existia uma curva apertada, inesperadamente aparece um carro na minha direcção! Desesperada, sem pensar muito bem o que fazer, travo bruscamente na roda traseira, sou arrasada pela estrada no bom sentido do equilíbrio, mas em vão! Tento outra maneira, viro a bicicleta para esquerda e pouso os pés no chão ajudando-me travar, poeiras elevam-se e sou tombada aos solavancos, tornando a minha queda imperecível no defeito do meu cálculo prudente.
Vi-me a ser disparada do ar para o pavimento, tento proteger a cabeça com as mãos e braços entrelaçados, apercebo de imediato nos golpes rasgados.
Calças esfarrapadas, joelhos esfolados e braços maltratados, elevo-me atordoada de dor e por mais incrível que pareça a bicicleta encontrava-se inteira!
As pessoas correm em meu auxílio, mas não percebo o que elas dizem, só leio pequenas sílabas: "Estás bem?". Bastou-me dizer sim, agarrei na bicicleta e fui para casa cheia de remorsos.
A memória perpetua-se até hoje na extremidade das minhas cicatrizes, quando olho para elas na suspensão da ocorrência acidental, e por falar em acasos não acredito em coincidências, apenas na circunstância que nos levam a ditar um momento. Se voltasse atrás, travava e a coincidência já não fazia qualquer sentido.
Ai, a minha juventude!
P.S- Feliz Dia da Mulher para quem aparece no blog, os meus votos atrasados.

01 março, 2006

O Silêncio da Palavra


Teclo na omissão da palavra, gosto do meu emudecer e de viver silenciosamente na virgindade das letras desabotoadas, prestes a serem desabrigadas pelo sopro do meu espírito místico e reservado.
Examino com clareza a veracidade do acontencimento, onde sou arrebentada pela emotividade dos meus olhares abrasados e cheios de vitalidade. De repente, um vulto figurado transparece á minha frente misteriosamente, avizinho-me com cautela do semblante que me dá índicios de temeridade. À medida que vou aproximando, o vulto fica cada vez mais pequeno mas poderoso.
Passos densos são camuflados pela miséria da lama pegajosa, o obstáculo torna-se díficil e a respiração é afogante, agonizante! O meu corpo quer desistir da caminhada, de ser atingindo pelas flechas da instabilidade, da incoveniência de lá chegar aos tropeções. O coração não deixa, prefere lutar até desvendar o enigma daquele objecto voador dentro da bola cristalina.
Caio, mas agarro com todas as minhas forças na ponta espicaçada do chão mas aonde está a outra metade? Não existe! È notável o abismo da monstruosidade soterrada!
Tenho de garantir a sobrevivência, faço balanceamento para cima suportando o peso do corpo.
As mãos estão feridas, magoadas e sangrentas a pingar ininterruptamente. Vejo-te enevoadamente e prevejo que me pertences, que me és destinado. Mas o que és? Um secreto confidencial?
Algo me diz para te pegar, fecho os olhos e apalpo-te ás minhas mãos, o efeito cristalindo desperta-se e eleva-se vagarosamente para o ar mas segundos depois inclina-se em alta velocidade esbochando para dentro de mim. Inopinadamente sinto estranheza na leveza do meu ser, o objecto já internado percorre por todas as veias e o ritmo cardíaco acelera impaciente de tremor!
Surge uma voz no meio das incertezas intermináveis, aquela voz é de inacção, de um imenso sossego:
"Ser do Silêncio, não tenhas medo de mim pois sou a outra metade que procuras em cada pensamento que juntas, e aquilo que vês na tua alma despida no mar de emoções. A graça que achavas transformou-se numa esperança da tenacidade, da força de ultrapassares todas as contrariedades.
Ès a energia de toda a essência que moves, que escutas e vês no profundo sigilo e eu sou a Palavra que complementa o teu equilibrio silencioso".
A luz cristalina descodificou um enigma sobrenatural que libertou-se do meu corpo, saindo do coração sob uma luz brilhante e intensa mas tão ardente de tanta luminosidade...
... sim, sei qual a minha finalidade para esta tal existência...

27 fevereiro, 2006

Campeonato Nacional


Quando ao Campeonato Nacional de Taekwondo, alcancei a segunda posição como vice-campeã nacional e não estive particularmente no meu momento porque em ringue sofri um bloqueio emocional que me deu uma lição de moral por parte do mister e colegas de equipa.
Não é a primeira e segunda vez que me acontece, surge com a espontaneidade sem deixar motivos lógicos por descrever. Só me resta continuar a tentar e tentar, e sim consegui chegar á final era este o meu principal objectivo, só perdi por minha culpa de não ter agrarrado a oportunidade.
Para o ano há mais!
Apresento a minha recente Associação Escolas Hwarang Taekwondo
Por vezes julgo que é bom desabafar no blogger, em vez de conversar cara a cara com uma pessoa conhecida, devido á proximidade emocional. Pode resultar na maioria das pessoas mas comigo não resulta, até porque são capazes de não me compreender facilmente.
A minha verdadeira natureza é contrabalançada pelo silêncio perante os sentimentos que por vezes atormentam a sanidade mental, sou como a água: silenciosa, calma, recolhida e meio-sonsa, mas com caracteristicas do fogo que brotam silenciosamente todas as superficialidades credíveis.
Cada pessoa conhece o silêncio á sua maneira como ninguém, a percepção psique é um bilhete de identidade com direito a um diário de bordo, onde poderá acrescentar todas as sensações sentidas.
Para mim o silêncio define-se em muitas formas:
  • O Silêncio da Alegria- Basta sentir a emoção, e deixar cair uma lágrima sem dizer uma palavra.
  • O Silêncio do Orgulho- A dignidade de vencer na vida.
  • O Silêncio da Dúvida- O medo de arriscar, de errar e da perplexidade nas escolhas.
  • O Silêncio da Derrota- As lágrimas do insucesso na vitória e o reconhecimento da humildade.
  • O Silêncio da Amizade- A perda de um amigo/a, as mentiras incorruptas, as falsidades e verdades.
  • O Silêncio da Dor- A perda de alguém conhecido, a magoa do arrependimento e o sofrimento dos ciumes exagerados.
  • O Silêncio do Amor- Um amor apaixonado por alguém, a perda do sentimento afectivo e amar a vida.
  • O Silêncio da Humanidade- Egnimas inexplicáveis, curiosidades invisíveis e viver na plenitude de todos os seres.
  • O Silêncio do Som- Ouvir em silêncio mas com melodia iluminada da vida.
  • O Silêncio da Visão- Ver com o coração com toda a alma despida.

17 fevereiro, 2006

Instante Expressivo


Este instante célebre aconteceu no verão passado, nunca mais esqueci daquele dia e é-me proibido deslembrar-me até porque foi um momento enamorado e bastante especial.
Nós, um casal de namorados partimos em busca de férias durante uma semana no parque de campismo, longe de tudo, da cidade, do stress, da desordem do caos e da família. Uma semana de intimidade, de amor, de amizade e afecto que nutriu laços ainda mais forte entre nós, onde percorremos descalços e exploramos à beira-mar sob os grãos de areia deixando a nossa marca no mundo.
A tarde tinha acabado de escurecer lentamente, desenhado nuances no céu como aguarelas de óleo e coloridas, o pôr-do-sol acenava-nos com a delicadeza dos seus traços de calor que emanava um foco luminoso alaranjado. O mar permanecia calmo, imóvel e dócil sofrendo uma influência das cores reflectidas e misturadas do efeito produzido pelo céu.
Resolvemos fazer o jantar na esplanada antes de anoitecer totalmente, acabamos de comer com uma satisfação suprema, que nos deu vontade de dar uma volta pelo parque mesmo estando tudo às cegas.
O céu estrelado brilhava infinitamente pela noite inteira, mostrando o percurso total dos astros, de repente começou a ficar ventoso e o silêncio tinha-se tornado num verdadeiro recital de música!
Os ramos das árvores chocavam-se mutuamente e acarinhavam-se numa outra sem ódio, sem vingança, estavam a dançar ao sabor do vento. O meu namorado ficara surpreendido com a rapidez do vento que teimava estar enfurecido e revoltado com algo, com um gesto chamou-me:

Ele - Já viste isto? De repente está uma ventania, antes estava tão sossegado e caladinho, tinha logo que estragar a noite?!

Eu - Amor, não podemos mudar o rumo da natureza, se está assim que esteja e vamos para dentro, afinal a noite ainda é uma criança!

(caminhamos lado a lado, agarrados de um outro cheio de cumplicidade)

Fomos ver se estava tudo em ordem na cozinha, decidimos fechar o chapéu enorme por causa do vento, parámos no sítio e sem esperar ele agarra na minha mão e encosta-a junto ao ramo de árvore, dizendo:

Ele - Amor, queres saber como o vento faz música nas folhas?

Eu - Abanei a cabeça, com o sim afirmativo.

Ele - Vou fazer-te ouvir, mas primeiro tens de fechar os olhos.

Foi tão mágico, tão comovente que senti a vida da árvore a escorrer por todos os cantos na palma da minha mão, até chorei perdidamente de tanta emoção!
Claro, ele ficou tão assustado e nem sabia como reagir, apercebi-me e consolei-o que estava bem, apenas emocionada!
Desejam-me sorte, Campeonato Nacional Taekwondo GO TO :)

15 fevereiro, 2006

Pequenos Lutadores


OK, confesso que foi a última gota sem ter net em casa e assim vou postando na faculdade, visto que é a única alternativa de manter as minhas memórias actualizadas!

Ninguém, nem os pais destas crianças deitadas no berço a dormir tranquilamente de olhos fechados, de corpo pequeno e frágil e o seu rosto transportava uma serenidade inocente, mal poderiam imaginar que mais tarde os seus filhos fossem pequenos lutadores.
Conseguem imaginar um Taekwondoca de palmo e meio, transformar-se num homenzinho energético com o sorriso estrelado nos lábios, e os seus olhos a soltarem faíscas de contentamento?
Ouve-se um chamamento ingénuo e ruidoso, distante do local onde se encontrava o mister, a figura humana e masculina aproxima-se da criança e tranquiliza-a com uma voz suave, encorajando-a para não ter medo e que é a vez dela entrar em ringue.
Mister – Ouve o que te vou dizer, não fico triste se perderes ou contente por ganhares, o que quero realmente é que divirtas perante o teu oponente.
Taekwondoca – Está bem, vou tentar fazer isso e divertir-me.
Mister – Ès e sempre serás um pequeno campeão (na consciência do silêncio).
Avançou três passos para posicionar, equipado de Dobok (Fato) e cinto amarelado, de capacete na cabeça, com colete posto (protecção peitoral). Os dois pequenos lutadores dão movimentos melodiosos com o embate dos pontapés, de repente vislumbra um "bandal" (pontapé de lado) perfeitíssimo onde bate sonoramente em cheio no colete do adversário.
A curiosidade indescritível desperta o interesse e inquietação de espírito da criança levam-na dirigir os seus olhares para um sítio absolutamente sagrado e imaculado: o placard electrónico, onde eram visíveis as pontuações obtidas pela equipa de arbitragem.
O mister acalma a criança da ansiedade após esta ter visto o resultado, dizendo que ainda falta muito para acabar, a criança ignora o aviso e continua a tarrefa de pontuar cegamente, ficou alucinada pela conquista iminente da vitória.
Ouviam-se gritos gigantescos e incansáveis dos colegas, amigos e familiares a apoia-la freneticamente.
Mais um "bandal" bem dado, e forte que fez deslizar o oponente para o chão, a contagem do placard electrónico é descrescente e termina o combate com a vitória alcançada por 3-0. Corre velozmente em direcção ao mister e diz:
Taekwondoca- Fiz o que o mister me pediu, para me divertir!
Mister- Divertiste sim, mas tiveste auto-confiança a mais e tens de ter cuidado com isto...
Taekwondoca- Está bem! (Não entendeu o significado daquela conversa)
A criança pula de alegria, vai ter com os companheiros onde é felicitada...
A Arte marcial tem estas coisas maravilhosas e únicas, mais uma recordação para o báu inviolável dos sentimentos.

10 fevereiro, 2006

Missão Condenada


Quando tudo parece correr bem, existe sempre a tentativa de temer o pior e não aconteceu por acaso, na dita hora lesionei-me com uma entorse no pé direito a uma semana do Campeonato Nacional de Combates.
Estou condenada á insustentável leveza das lesões? Será que estão a me impedir de realizar os meus desejos? Será que não o mereço arduamente como qualquer desportista de alta competição?
Estou farta de me lesionar, este ano já vão duas ou será que vem mais? Parece que o meu corpo já não responde da mesma maneira como dantes, só me resta descobrir o elo de tantas ligações.
Que se passa comigo?
Não vale a pena ramusgar, vou é ter pensamento positivo e recuperar-me a tempo, se não resultar direi: que se lixe, combaterei na mesma estando lesionada!
Nada está perdido, apenas adiado e vou encarar em ringue com um sorriso nos lábios...
Final: 19 de Fevereiro
Pavilhão Municipal da Torre de Marinha - Seixal

30 janeiro, 2006

Flocos de Neve


Para recordar, 29 Janeiro de 2006.

Encontro-me sozinha em casa e não está aqui ninguém, só eu e o espírito das coisas que parecem estar paradas no tempo, mas movem-se furtivamente sem aperceber das suas diversas tonalidades com vida própria.
Encostada no sofá, de telecomando na mão primado cada botão de um canal sincronizado e noto que não há nada de interessante para ver, que faço? Remendo-me ao silêncio de uma revista, leio frases saltitando de parágrafo em parágrafo avidamente de um desejo ardente prestes a ser devorado pelos meus olhares curiosos e dilatados.
O telemóvel permanece a meu lado sobre um azul-marinho no descanso da sua funcionalidade, quieto sem nenhum sinal de vida, apenas prontificado e esperado que alguém o pegue afectuosamente. Talvez por sentir raiva e rabugice decidiu despertar-se com uma vibração absolutamente tremida, mas forte para me chamar atenção e pegar nele como desejava carinhosamente. Desbloqueio, vejo a mensagem sobre um televisor minúsculo mas cheio de cores onde existe um simples contraste de azul, laranja, vermelho, lilás.
A mensagem é reaberta, o destinário revela-se e é a minha mãe:

“Vai à janela está a nevar!”

Pensei:

“A nevar? Será verdade, aqui no Seixal a nevar?”

Levanto-me em sobressalto, abro o cortinado e contemplo a paisagem espantada com quedas de pequenos flocos de neve, dou meia volta e corro imediatamente para o meu quarto onde agarro e visto o meu blusão, ao lado está um candeeiro que por acima fica o gorro branco. Meto na cabeça, corro para a sala e abro a porta da varanda onde sou surpreendida pela vaga gelada do frio.
Já estou aqui fora a maravilhar esta oportunidade, crianças do bairro entusiasmadas e de braços abertos para o céu, pela primeira vez na vida vi o nevar levezinho no Seixal, pensei:

“Que raio se passa com o tempo? Isto não é lá muito frequente acontecer, é de certeza um fenómeno de anormalidade temporal!”

Subitamente fui atacada pelas lembranças de infância na Serra da Estrela…

27 janeiro, 2006

Pré-Adolescência


Ainda com nove anos, estava destinada a estimular todos os meus sentidos até à abundância da minha criatura humana, em que a curiosidade era ilimitada mesmo tendo ficado maravilhada ao ler os meus pensamentos dentro da cabeça pensadora como um simples encaixe de puzzles minúsculos, no ponto de as tornar perceptível o meu verdadeiro EU.
Já não era apenas uma criança, mas a tornar-se numa criança pré-adolescente com uma maturidade precoce onde já não me reconhecia totalmente. Eu era uma estranha, uma desconhecida de corpo desfigurado e mudado mas sentia bem comigo mesma, fui ficando cada vez mais alta, a máquina biológica estava a desenvolver a cintura, os seios e um feitio insuportável de fazer a vida negra a todos que conhecia, será que tinha uma forte personalidade?

Desde que nasci, eu e a família costumamos passar as férias todos os anos no norte de leste, numa pequena província em Sarnadas de Ródão que fica cerca de 160 km da fronteira espanhola.
Já tinha passado a época do Natal e do Ano Novo, os meus pais decidiram visitar os meus primos na Covilhã, eu simplesmente delirava como uma verdadeira apaixonada de rever os meus primos Olga e Tiago. A diferença de idades entre mim e a Olga (a mais velha) é de cinco anos e o Tiago era um verdadeiro patife, até pior um autêntico PESTE por ser o mais novo do grupo.
Só me lembro de estarmos bem agasalhadas no sofá da sala com toneladas de cobertores enroladas aos nossos corpos a ver um filme americano acerca dos adolescentes. De rompante aparece o Tiago a fazer birras de infantilidades e asneiradas de atormentar as nossas paciências, avisámos-lhe que parasse senão sofria com as nossas consequências, entretanto a paciência tinha-se esgotado abruptamente!
Levantamo-nos as duas, e agarrei-o com todas as minhas forças e ele com um sorriso manhoso pois ele nunca se dava por vencido, só que desta vez o momento era nosso… só nosso!
O Tiago gritava, agitava os braços e esperneava as pernas numa tentativa de soltar-se e foi aí que a minha prima teve uma ideia, resolveu tirar os atacadores dos ténis dele no propósito de o prender nas suas pernas e não dar-nos tanto trabalho de segurá-lo. Tinha uma agilidade impressionante!
Braços e pernas prendidas pelos atacadores finos, como a criatividade nos levava ainda mais longe de tornar a nossa brincadeira mais insuportável, que pudesse ser uma marca registada como um dos seus piores momentos, dirigi ao quarto da Olga e procurei algo em redor, não foi preciso mais de milissegundos que surgisse uma grande lâmpada na minha cabecinha pensadora: o Kit de maquilhagem!
Acelerei os passos apressadamente para a Sala, ao entrar esboço um sorriso manipulado para o Tiago, e a Olga estava estupefacta e riu-se desalmadamente para o irmão “ai mano, vais pagar e sofrer à custa da nossa maldade!”
Mãos ás obras, alguém tinha de segurar a cabeça do Tiago, nem eu e a Olga queríamos até resolvemos atirar a moeda ao ar, escolhi cara e ela coroa e o resultado final foi a cara, sorridente pequei no Kit de maquilhagem e lá fui pintando a cara do Tiago, embora não ficasse na perfeição é que continuava a ter força suficiente para abanar compulsivamente a cabeça de um lado para o outro, alias também a tentativa de mordeduras não passavam despercebidas.

Ficou LINDO, o boy-ragazza de olhos esverdeados!

Embrulhámos-lhe com os cobertores a circular no chão, o coitado deve ter visto os seus olhos aos círculos, devido ao enrolamento! Cada uma pegou o seu lado e levamos o Tiago até à porta da cozinha onde estavam os nossos pais na conversa, bastou-nos bater a porta e fugir-mos para a sala e rir-mos de gargalhadas!

O nosso castigo veio depois, mas não arrependemos pois ele teve aquilo que merecia há tempos!

11 janeiro, 2006

Sou Taekwondista


Desde os meus dez anos pratico alta-competição, o TAEKWONDO é o meu máximo expoente, o meu porto libertador quando me submirjo até desaparecer sem deixar indícios na totalidade dos fenómenos psíquicos.
Vivo na expectativa da competição, é dentro do ringue nos tapetes enquadrados e divididos por duas cores predominantes de vermelho e azul que começo a ser alguém na vida: sou temida por uns, odiada e adorada por outros que não me vêem como Surda mas como Desportista.
O cheiro da agressividade é saboroso, a transpiração da ansiedade de competir é tocante, mas o momento de três minutos em cada três Rounds parece uma eternidade em câmara lenta.
A fome inigualável da adrenalina a subir e dar o meu melhor por tudo e pelo nada com as cenas mais radicais e movimentos espectaculares, as tácticas, as velocidades dos pontapés no ar onde me dá uma vista impotente da graciosidade. A vontade de meter os pés acima do tapete, de corpo musculado inteiramente equipado a elevar o espírito do TAEKWONDO de uma forma expressiva e inesperada, acima de tudo de PAIXÃO.

Isto é a minha vida que carinhosamente abracei na entrada da juventude, não me arrependo!

Prova de Fogo: 14 Janeiro – Primeira Prova de Apuramento do Campeonato Nacional de Combates, Leiria.

06 janeiro, 2006

Emoções Digitalizadas


Estive uma semana fora do blogger, necessitei de me afastar por um determinado tempo até me encontrar interiormente. Os meus pensamentos viajavam a uma velocidade vertiginosa em direcção ao fundo do abismo aquático, e o meu coração recebia impressões de emoções digitalizadas dentro das bolhas de ar.
O poder da mente guerreou lado a lado todas essas atrapalhadas cépticas, levando-me para cima onde entremostrava um brilho intenso: a guerreira estrela faiscante do sol.
Cheguei à superfície banhada de água em salpicos, pude sentir os seus raios de calor com um toque meigo a dedicar-me inteiramente toda a proximidade da energia, catalizando-me um motor de vida.
Tudo que senti foi tão estranho, alias tão estupidamente inexplicável que dificilmente possa dizer, uma mistura de vários sentimentos em sabores diferentes: sofrimento, indignação, incerteza, raiva, e desolação por não ouvir.
A TEXERE escreveu "Surdo é aquele que não quer ouvir”, entendi perfeitamente mas a questão não é esta, porque não me considero uma pessoa Surda ou Deficiente Auditiva, na verdade não o sou. Simplesmente não ouço mas a minha consciência têm uma fábrica poderosa que ela própria me apelida de Ouvinte, e Surda é apenas uma máscara falsa que a sociedade criou.
Não tenho a cultura da Comunidade Surda, a sua maneira de ver as coisas, o pior é que não me interligo bem àquele mundo diferente do meu, certamente que muitos ficam tão abismados por ler esta afirmação, apenas sei gestualizar a Língua Gestual Portuguesa não oficialmente, dado que foram poucos amigos que me ensinaram um idioma para a dimensão de dois mundos alterados.
Porque não ouço? Porque me tiraram este sentido? Isto é uma constante incógnita que não tem a resposta que tanto desejava, então como apareceram aquelas emoções conturbadas? Todos os dias quando vou para a faculdade passeio pela rua e me divirto, vejo adolescentes e adultos a expor uma ruidosa gargalhada dada a prerrogativa de gostar saber o tema amplo dos risos, uma efémera curiosidade!
As conversas longas e a música são assim tão importante? No que a torna especial? Como é o cantar dos pássaros? Que melodia dá o mar e o vento? Ou como é a música que o mundo dá à audição?
Não tenho culpa de exigir, a minha consciência está a me pedir para alargar montes de coisas e que continue ser assim…

Que 2006 seja o ano da realização de muitos sonhos!

Dia 7 de Janeiro: Estágio de TAEKWONDO de combates, GO TO!

A boa nova: recuperei a minha lesão, uippiii!